Eu tenho uma amiga…

18 04 2010

Eu tenho uma amiga muito apaixonada, ela é cheinha, loira dos cabelos enrolados. Ela nunca ficou um período muito extenso sem namorar ou ficar com alguém. Eu tenho uma outra amiga louca de pedra, que não usa maquiagem, ela reboca a cara. Eu tenho uma amiga também que usava pílulas para emagrecer e teve ataques de trimiliques. Eu tenho uma amiga que uma vez terminou com o namorado por telefone dizendo um “não te quero mais” e desligando na cara do coitado logo em seguida. Eu tenho uma amiga não raspa nem descolore as pernas. Eu tenho uma amiga que detesta usar camisinha e nunca ficou grávida. Eu tenho uma amiga neurótica, uma amiga hilária, tenho também uma amiga que compra muitas revistas em quadrinhos.

Eu tenho uma amiga muito inteligente. Ela estuda matemática, ama gatos e tem uma tara de infância pelo Jon Bon Jovi. Eu tenho uma amiga com pintofobia. Uma outra amiga minha muda a cor do aparelho quase todo o mês. Eu tenho uma amiga fissurada pela cor laranja. Eu tenho uma amiga que decidiu começar a se vestir mal para tentar aparecer no programa “Esquadrão da Moda” do SBT e me mandou contactar o programa para ela. Também tenho uma amiga que prefere usar cuecas a calcinhas. Eu tenho uma amiga cuja conta telefônica ultrapassa os cento e oitenta reais por mês. Eu tenho uma amiga advogada, uma jornalista e uma que quer trabalhar na TV. Uma vez uma amiga minha comeu um pacote inteiro de sorvete sozinha e virou a noite acampando no banheiro.

Eu tenho uma amiga pervertida, uma super religiosa e uma que nunca ficou um dia sem apertar a minha bunda. Eu tenho uma amiga que já se apaixonou por mim uma vez. Uma amiga minha canta super bem. Ela canta na igreja e gosta de funk gospel. Eu tenho uma amiga que a cada dez palavras que fala, oito são palavrões. Uma outra amiga minha se sente orgulhosa por ser magérrima e faz questão de verbalizar sua opinião sobre sua magreza. Eu tenho uma amiga com mania de perseguição. Uma outra amiga que gasta o salário inteiro com maquiagem e cosméticos. Eu tenho uma amiga que só usa All Star e pinta o cabelo de roxo.


Eu sou amigo de várias garotas também.
Eu poderia ser o amigo maluquinho.
Ou o amigo que gosta de ler.
O amigo que faz Letras.
O amigo revoltado.
Mas curiosamente, o mais comum é “esse é o meu amigo gay”.
Por que será?

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O almoço de todo dia de um universitário

6 04 2010

Estudante universitário sabe como a hora do almoço é um momento sagrado do seu dia e como isso pode alterar o seu humor. Eu pessoalmente fico insuportável quando estou com fome, principalmente para a pessoa ao lado, que por um acaso do destino acaba tendo que suportar os lamentos de uma criança faminta de oscilações rabujentas falando “ai que fome” a cada dois minutos e sobre como o estômago está roncando e implorando por comida. Em alguns casos é até possível a pessoa alheia ser capaz de escutar um dos breves lamentos do meu estômago faminto, mas veja bem: Eu acordo às seis da manhã a tempo de tomar um bom café com direito a frutas, pão, queijo e tudo mais que estiver disponível no doce lar da nossa casa, mas depois disso vem o adicional de fazer parte dos pobres coitados que moram na Baixada Fluminense (conhecida calorosamente como “Cu do Rio de Janeiro”) e ser sujeito a viajar uma hora e meia TODO-O-SANTO-DIA para chegar à faculdade que, convenhamos, situa-se no meio do nada. Quero dizer, quando eu chego na faculdade eu já estou morrendo de fome.

Quando eu virei universitário ano passado eu sempre ouvia pelos cantos ou lia nos enormes cartazes do meu prédio das tantas manifestações sobre como o nosso “restaurante popular” funciona. O famoso bandejão. Se você estuda numa universidade pública e conhece os prazeres dos bandejões, provavelmente entende como eu me sinto. Enfrentar aquela fila enorme todo o dia no horário do almoço e pagar dois ou três reais por uma refeição completa com direito a suquinho e (!!!) sobremesa, é uma maravilha. Mas bem, eu pago dois reais pra comer e não estou em posição de reclamar, porque realmente quebra o galho e forra o estômago, mas nada é perfeito. Aliás, se é para ser sincero a comida passa longe de ser perfeita, com aqueles bifes suspeitos encharcados de molhos um com o nome mais bizarro que o outro, e que além de tudo ocupa mais da metade do seu prato. Ou seja, tem vezes que a gente não sabe nem o que fazer com aquele trambolho de carne de quinta que veio sabe-se lá de onde e é preparado pelas mãos sabe-se lá de quem. Mas fazer o quê, a gente tem que comer, se alimentar, afinal quem vai estudar por nós, o futuro dessa pátria TÃO amada chamada Brasil?

Mas essa semana para a minha surpresa aconteceu um barraquinho particular na entrada do Bandejão, coisa que nos meus longos dias de primeiro período ainda não havia tido a honra de presenciar. Como é que funciona o Bandejão do prédio de Letras? É assim: Mais ou menos às dez, onze horas eles começam a distribuir “senhas”. Essas senhas servem para você guardar o seu direito da refeição ATÉ às treze horas, quer dizer que você chegando lá ATÉ às treze horas você pode entrar e então poder saborear sua refeição sem problema algum. Eu nunca tive problemas com isso se a gente ignorar a demora que a fila anda, mas no meio de todo esse sistema tem um porém. Nem todo mundo que adquire a senha vai usá-la depois, é por isso que quando as senhas acabam (porque eles dizem e a gente finge acreditar que as refeições são perfeitamente CONTADAS) é formada uma segunda fila para as pessoas que não conseguiram pegar a senha, mas que ainda assim querem ter o prazer de comer no bandejão. Então o que aconteceu, os funcionários do sistema resolveram não esperar mais dar treze horas e começaram a deixar o povo SEM SENHA entrar e a comer as refeições do povo COM SENHA, que sai da aula exatamente ao meio-dia e cinquenta. O que aconteceu? Quando eu e minhas amigas chegamos lá a comida já tinha acabado, fecharam as portas do refeitório na nossa cara para ninguém mais entrar e a confusão foi armada.

Sabe aquela coisa de um grupo colocando a culpa no outro e vice-versa? Pois é, quando não tem ninguém imparcial a coisa nunca vai pra frente. É como se dissessem que a culpa era nossa que a gente estuda e precisa comer pra não desmaiar no pátio da faculdade. Foi só quando a responsável do refeitório chegou e viu um monte de gente com senha sem comer que a coisa começou a andar. Eles tiveram que tirar o almoço dos funcionários para dar pra gente. Quase que deixei escapar um “haha se foderaaaam”, e quase morri quando um deles tentando contar quantos estudantes estavam com a senha, acabou contando errado e após dar o resultado veio um dos nossos dizer que ele não sabia contar até dezessete.

Mas o mais engraçado foi o garoto berrando no meio do refeitório quando conseguimos entrar. Merece até uma tentativa de reprodução:
Estávamos na fila e ele puxou papo com uma amiga que estava sentada almoçando.

Garoto: FULANA, VOCÊ ACREDITA QUE QUASE ME DEIXARAM SEM COMER?
Fulana: MAS QUE ABSURDO! ISSO NÃO PODE ACONTECER! PROCESSA!
Garoto: CLARO NÃO PODE ACONTECER, IMAGINA A MINHA BOCETA FICANDO COM FOME? NÃO DÁ, MINHA BOCETA IA CHORAR SE NÃO LHE DESSEM DE COMER.”

Pois bem, EU chorei.
De rir.





Foda-se

3 04 2010


Sinceramente eu nunca tive um problema muito sério para conseguir me enturmar, de um um jeito ou de outro eu acabava conseguindo me encaixar em algum canto nos lugares que faziam parte da minha rotina diária. Quando criança eu não pensava muito nisso, mas hoje em dia eu falo muito mais com as pessoas numa tentativa de ser mais simpático para não parecer tão debochado a ponto de me odiarem sem motivo no primeiro encontro. Ainda não funciona tão bem eu acho, mas pra falar a verdade eu não ligo muito para isso. Eu costumava pensar diferente, eu queria dar motivos para as pessoas me detestarem. Quando mais novo eu era uma criança muito tímida e fechada. Ainda me considero tímido, mas não mais de uma forma tão auto-destrutiva para com o resto do mundo. Eu tinha a mania ignorar as pessoas e não deixar ninguém entrar no meu “círculo de ar”. Ninguém podia me tocar e ninguém podia respirar o ar que eu respirava. Eu não deixava as pessoas me alcançarem ou me compreenderem.

Foi mais ou menos aos meus treze anos que meu jeito de pensar começou a amadurecer. Eu liguei o “foda-se”. Comecei a dizer o que pensava e a fazer comentários quando queria fazer, mas por mim e não pelas outras pessoas ou o que eu pensava que elas queriam ouvir. Eu devo ter tido três fases na minha vida toda, que eu dividiria em “meu próprio mundinho”, “odeie-me” e o de “hoje”, que pode dizer oi para você, mas também pode não ligar a mínima e te mandar tomar no cu caso me irrite. Acho que toda essa evolução da ‘fase 1’ pra ‘fase 2’ aconteceu por eu ter começado a me sentir muito sozinho e aquilo não estava fazendo bem pra mim. Quando você desce no muro e bate o pé sobre o que você pensa geralmente muita gente vai discordar de você, mas você também vai conseguir achar pessoas que pensem igual. Já eu sempre me senti diferente dos demais, o que é meio idiota em certo ponto. Afinal, ninguém é realmente igual a ninguém por mais que os gostos batam. Meus melhores amigos sempre tiveram os gostos mais nada a ver com os meus. É até saudável você conseguir andar com pessoas assim. Contrastes de opiniões, diferentes pontos de vistas, variadas conversas e assuntos. Conseguir entender o diferente também faz parte da cultura de cada um. Isso é, quando você tem a mente aberta.

No meu caso eu sempre fui visto como o “estranho” do grupo. O afeminado de estômago fraco que liga demais para assuntos acadêmicos. O “estranho” que não costuma ouvir tanta música ocidental como os outros. O “estranho” que curte música popular japonesa. O “estranho” que gasta horrores com revistas em quadrinhos e CD’s importados do Japão. Desde a infância eu ouvia sobre como eu devia me enquadrar ao padrão. Por muito tempo eu tentei e honestamente falando, era a coisa mais ridícula que eu tentei fazer da minha vida.

Uma vez numa situação escolar, como de costume, eu tive uma opinião diferente do resto da turma. Não me lembro exatamente sobre o quê no momento, mas quando perguntado sobre o por quê da divergência de opinião um colega respondeu por mim dizendo “É porque ele quer ser diferente”. Isso deixou uma profunda impressão em mim. Porque é engraçado, você cresce com as pessoas dizendo que você é diferente, que você devia gostar “disso” e não “aquilo”. Que você devia brincar com uma bola de futebol e não bonecas. E quando você menos espera vem alguém dizer que era VOCÊ quem tinha uma sede incontrolável de não ser igual aos outros.

Só que eu nunca quis ser diferente.
As pessoas que me taxavam de diferente.
Mas quer saber?
Foda-se.








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